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40 anos de “Capital Inicial”: o disco que apresentou ao Brasil uma das grandes bandas do rock nacional

  • Foto do escritor: Sérgio Dall'Alba
    Sérgio Dall'Alba
  • 11 de ago.
  • 6 min de leitura

Há quatro décadas, o Capital Inicial estreava com um álbum que misturava urgência punk, crítica social e melodias que se tornariam clássicas — e ajudava a transformar a cena de Brasília em fenômeno nacional


Em 1986, o rock brasileiro vivia um de seus momentos mais importantes. Depois de anos de repressão e de uma lenta abertura política, uma geração de bandas surgidas principalmente no início da década começava a ocupar definitivamente o espaço deixado por anos de pouca presença do rock nacional no grande mercado.


Foi nesse cenário que o Capital Inicial chegou às lojas com seu primeiro álbum, simplesmente intitulado “Capital Inicial”.


Lançado pela PolyGram em agosto de 1986, o disco completa 40 anos em 2026 e permanece como um dos registros fundamentais da primeira fase do rock de Brasília. Mais do que apresentar uma nova banda ao público, o álbum documentou uma geração que havia começado a fazer barulho na capital federal alguns anos antes e carregava nas músicas a inquietação de quem cresceu sob a ditadura militar.


O álbum também representava a continuidade de uma história que havia começado no Aborto Elétrico, banda formada em Brasília e fundamental para o surgimento tanto do Capital Inicial quanto da Legião Urbana.


Antes do LP, Brasília já fervia

A história do primeiro disco do Capital Inicial não começa em 1986.


Os integrantes da banda já acumulavam anos de apresentações e composições quando finalmente chegaram ao estúdio. O repertório do álbum foi construído durante aproximadamente três anos de atividade ao vivo e incluía músicas que haviam sido compostas ainda nos tempos do Aborto Elétrico.


É o caso de “Música Urbana”, “Veraneio Vascaína” e “Fátima”, três das faixas mais importantes do álbum.


A formação do Capital Inicial naquele momento reunia Dinho Ouro Preto nos vocais, Loro Jones na guitarra, Flávio Lemos no baixo e Fê Lemos na bateria.


A produção ficou a cargo de Bozo Barretti, que também participou musicalmente do disco nos teclados e posteriormente se tornaria integrante da banda. O álbum foi gravado em São Paulo entre janeiro e março de 1986, segundo informações da ficha técnica reproduzida em registros do lançamento.


O resultado era um disco direto, com pouco interesse em sofisticar artificialmente a sonoridade. O Capital Inicial chegava ao mercado com guitarras, baixo e bateria à frente, letras provocativas e uma energia que dialogava diretamente com o punk e o pós-punk.


“Música Urbana”: o retrato de uma geração

Abrir o álbum com “Música Urbana” não foi apenas uma escolha musical.

A faixa sintetizava boa parte do espírito do disco: cidades, carros, ruas, gasolina, concreto e a sensação permanente de que alguma coisa estava prestes a acontecer.


A composição nasceu no Aborto Elétrico e traz créditos de Fê Lemos, Flávio Lemos, André Pretorius e Renato Russo. O próprio site oficial do Capital Inicial mantém a faixa em sua discografia e registra essa autoria.


A canção também ganhou uma nova dimensão ao ser utilizada na trilha da novela “Roda de Fogo”, da Rede Globo, ampliando significativamente o alcance da banda. O primeiro disco acabaria conquistando Disco de Ouro.


É um bom exemplo de como o Capital Inicial conseguiu fazer a ponte entre o underground de Brasília e o grande público brasileiro.


Um disco que não tinha medo de provocar

Se “Música Urbana” apresentava a atmosfera urbana do grupo, “Veraneio Vascaína” mostrava que o Capital Inicial não pretendia abrir mão da provocação.


A música, composta originalmente no período do Aborto Elétrico, fazia uma crítica contundente à violência policial. Em 1986, mesmo com o fim do regime militar, a censura ainda era uma realidade para determinadas manifestações culturais.


A faixa acabou sendo alvo dos censores e o episódio contribuiu para aumentar a repercussão do álbum. O LP recebeu uma tarja de “proibido para menores de 18 anos”, situação que, ironicamente, acabou funcionando como publicidade para a banda.


A história demonstra uma das características mais marcantes daquele momento do rock brasileiro: a música popular havia conquistado uma liberdade muito maior, mas ainda carregava as marcas de uma sociedade que acabara de sair de duas décadas de ditadura.


“Fátima” e a herança do Aborto Elétrico

Outro momento fundamental do disco é “Fátima”, composição de Flávio Lemos e Renato Russo.


A faixa já havia sido criada durante a fase do Aborto Elétrico e representa uma das conexões mais evidentes entre as duas bandas que nasceram daquela cena brasiliense.


“Fátima” combina crítica política, referências religiosas e uma atmosfera quase apocalíptica. Décadas depois, continuaria sendo uma das músicas mais reconhecidas do repertório do Capital Inicial.


Ao lado de “Música Urbana” e “Veraneio Vascaína”, ela ajuda a fazer do primeiro álbum um documento não apenas da banda, mas de toda uma geração que estava descobrindo novas formas de expressão.


Nem só de clássicos conhecidos vive o álbum

Um dos méritos de revisitar “Capital Inicial” quatro décadas depois é perceber que o disco vai muito além das músicas que sobreviveram como clássicos.


O álbum original possui 11 faixas:

  1. Música Urbana

  2. No Cinema

  3. Psicopata

  4. Tudo Mal

  5. Sob Controle

  6. Veraneio Vascaína

  7. Gritos

  8. Leve Desespero

  9. Linhas Cruzadas

  10. Cavalheiros

  11. Fátima


A relação é confirmada pela discografia oficial da banda.

Entre elas está “Leve Desespero”, que havia aparecido anteriormente no primeiro compacto do Capital Inicial e ajudava a conectar a trajetória independente da banda ao momento em que ela finalmente chegava a uma grande gravadora.

É justamente essa característica que torna o disco interessante ainda hoje: ele não parece construído para produzir apenas um ou dois singles. Existe ali um retrato relativamente completo de uma banda que ainda estava descobrindo qual seria seu lugar no rock brasileiro.


O nascimento de uma das grandes bandas do rock brasileiro

O primeiro Capital Inicial também precisa ser compreendido dentro de uma transformação maior.


Ao lado de Legião Urbana e Plebe Rude, o grupo ajudou a colocar Brasília no mapa do rock brasileiro. A cena que havia surgido na capital federal no início dos anos 1980 começava a produzir bandas capazes de ultrapassar as fronteiras da cidade.


O caminho, entretanto, não seria simples.


Depois do álbum de estreia, o Capital Inicial ainda lançaria “Independência”, em 1987, e passaria por diferentes fases durante sua carreira. O grupo experimentaria mudanças de sonoridade e formação antes de alcançar uma nova dimensão comercial anos mais tarde.


O grande renascimento viria no início dos anos 2000, especialmente com o “Acústico MTV”, que recolocou músicas antigas e novas diante de uma geração que talvez nem tivesse nascido quando o primeiro LP chegou às lojas.

Mas muitas das músicas que seriam revisitadas naquele período estavam ali desde o começo.


40 anos depois, por que esse disco ainda importa?

O mais interessante em “Capital Inicial” talvez seja justamente sua imperfeição.


Não é um álbum produzido para soar atemporal. Pelo contrário: ele é profundamente marcado por seu momento histórico.


As guitarras, os arranjos, a produção, a urgência das letras e até mesmo a maneira como Dinho Ouro Preto interpreta as canções carregam a atmosfera de 1986.

E é justamente isso que faz o álbum sobreviver.


Quatro décadas depois, “Música Urbana” continua funcionando como retrato de uma cidade que nunca dorme. “Veraneio Vascaína” permanece como uma das canções de protesto mais contundentes daquele período. “Fátima” continua sendo reconhecida como uma das composições mais importantes associadas à história do Aborto Elétrico.


O disco também registra um momento muito específico do rock brasileiro: aquele instante em que bandas que haviam surgido longe dos grandes centros começaram a perceber que havia espaço para suas histórias, suas inquietações e suas guitarras no mercado nacional.


Um ponto de partida que virou história

Em retrospecto, é fácil enxergar o primeiro “Capital Inicial” como o começo de uma trajetória que atravessaria gerações.


Mas, em 1986, não havia garantia alguma de que aquela banda de Brasília chegaria tão longe.


Havia apenas quatro músicos, um repertório construído na estrada, algumas canções que já carregavam uma história e a vontade de transformar aquela inquietação em música.


O álbum fez exatamente isso.

Quarenta anos depois, “Capital Inicial” continua sendo menos uma fotografia de uma banda em início de carreira e mais um registro de uma época em que o rock brasileiro descobria que podia falar alto — e ser ouvido por todo o país.


Ficha técnica

Álbum: Capital Inicial

Artista: Capital Inicial

Lançamento: 1986

Gravadora: PolyGram

Produção: Bozo Barretti

Formação: Dinho Ouro Preto, Loro Jones, Flávio Lemos e Fê Lemos

Faixas: 11

Ano comemorativo: 40 anos — 2026


Ouça o álbum abaixo.




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